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domingo, 9 de março de 2008

Criar o Futuro (V)


Cristina apanha o avião naquele dia chuvoso. O seu marido e filhos esperaram-na na sua humilde mansão no Canadá. A seu lado, está um senhor cuja cara não lhe é estranha.
Bernard, por seu turno, sabe perfeitamente quem é a senhora que viaja a seu lado; ele foi contratado por um brilhante homem de negócios, de nacionalidade britânica, para a assassinar. Nunca se propôs a aceitar um trabalho deste tipo. Foi obrigado a aceitá-lo pela pressão de forças maiores. Agora que a sua casa se encontra hipotecada está disposto a tudo para pagar as dívidas que se acumularam ao longo dos anos.

Cristina levanta-se e dirige-se para a casa de banho. Passados uns segundos, Bernard segue as suas passadas. Cristina abre a porta do cubículo e fecha-o de seguida. Bernard tenta interceptá-la, sem sucesso.

A porta do cubículo abre-se passados uns minutos. O silenciador da arma de Cristina abafa o som grave do tiro, tornando-o agudo e quase imperceptível àqueles que desfrutam a viagem, tranquilamente. Bernard cai, inerte, e é escondido numa das casas de banho.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Criar o Futuro (IV)


Cristina Mendes, filha da viúva, compareceu ao funeral. Dela, apenas se sabe que vive no Canadá e que se dirigiu a Lisboa para assistir ao enterro da senhora sua mãe. Não houve quem lhe dirigisse a palavra mas todos a olharam de soslaio, pelo menos uma vez.
Manuel, grande amigo da falecida sra. Mendes, mostrava-se calmo. Todos aqueles que compareceram ao funeral se dirigiram a ele como forma de lhe demonstrar o seu pesar. Apesar de agradecer, Manuel não verteu uma única lágrima pela viúva.

***

- Mas... Vitória, explica-me porque não queres voltar a ver-me!
- Bem sabes que sou casada.
- E que diferença faz? O teu marido nunca nos impediu de nos encontrarmos; até porque ele não sabe nem sequer desconfia do que se passa.
- Não sabe nem desconfia mas pode vir a saber. E agora, sai. Não tornes a voltar a bater a esta porta que não és bem-vindo.
- Por fav... - Vitória interrompe Manuel de forma irrascível.
- RUA!

Manuel saiu para não mais voltar. Vitória sabia-se grávida.

***

Cristina nasceu sem conhecer o pai. Segundo lhe contaram, este suicidou-se antes de saber que iria ser pai uns meses mais tarde. A viúva Mendes levou consigo o segredo bem guardado acerca da paternidade de sua filha. Manuel nunca havia sequer desconfiado, nem teria tempo suficiente para descobrir; Cristina voltaria ao Canadá após o enterro do corpo de sua mãe.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Criar o Futuro (I, II, III)

Da janela do quarto vejo Amadeus a pass[e]ar. O seu trajecto habitual não demora mais que 100 metros (e sim, o que mede a distância tem necessariamente uma correspondência temporal): casa-trabalho, trabalho-casa. Sai do 15 e, até entrar no 28 da mesma rua, não despega os olhos do chão, como se algum dos manequins daquela pequena boutique pudessem revolucionar a sua vida.
Lola observa-o dia após dia e não o vê mudar de direcção; deseja que um dia, como que por acidente, se cruzem na mesma rua os todas as manhãs e todos os finais de tarde o vê passar, cabisbaixo.
Após olhar durante mais um pouco, Lola segue a cliente para dentro da loja, ajuda-a a escolher o vestido mais indicado ao seu delicado perfil e conclui a primeira parte da sua tarefa como assistente de moda. Apercebendo-se da entrada subreptícia de um vulto, pela porta, Lola volta costas à sua cliente, fixando Amadeus nos olhos.
- Bom dia, diz, a custo.
- Bom dia. Gostaria de ver as blusas, para senhora.
- Para alguém em especial?
- Sim. Para a minha mulher.
Dito isto, Lola, pede-lhe, entredentes e já sem força nas pernas:
- Aguarde um momento, por favor. Estou a acabar de atender uma cliente.

***

Enquanto Adelaide prova o vestido que Lola escolheu para si, João brinca, impaciente, com a sua pequena bola de borracha. Desastrado, chuta-a com força através da porta da rua; Zazá corre atrás da bola, voltando para trás de imediato, ao avistar um cão enorme a poucos metros de si. João sai calmamente a porta, acaricia o pêlo negro do cão e retira-lhe a bola de entre os dentes.
- Como se chama?, pergunta.
- Tomás.
- O cão...
- Ah. Polis.
João dirige-se ao interior da loja mas colide com a sua mãe à entrada da mesma.
- Tomás?!
- Adelaide... por aqui?
As semelhanças entre os traços faciais de João e Tomás apresentavam semelhanças evidentes. O mesmo cabelo escuro e escorrido sobre a testa, as sobrancelhas finas, direitas e pontiagudas, os mesmos olhos negros em forma de amêndoa, o nariz delicado e os lábios bem-definidos, presentes na mesma cara bem-delineada. A pele de Tomás era, contudo, ligeiramente mais escura.
Adelaide agarra a mão do filho e despede-se de Tomás de forma tosca, evitando olhá-lo nos olhos. Ainda que não compreendendo a atitude daquela que fora em tempos uma grande amiga sua, Tomás encolhe os ombros e segue o seu caminho. Tem cerca de trinta minutos para atravessar a cidade.

***

Polis, o cão de Tomás, fitava, há alguns segundos, um cão do sexo feminino que urina à esquina do prédio. O seu rosnar feroz nenhuma reacção provoca na cadela que parecia encontrar-se num estado de apatia completa, como se o mundo tivesse perdido os seus contornos. Tomás puxa-lhe a trela, comprimindo-lhe a garganta com a coleira. O suspiro de Polis atrai, finalmente, a sua presa; no entanto, esta, passa-lhe à frente sem sequer levantar o olhar. Tomás puxa o seu fiel companheiro para a esquerda, mas este segue para direita; segue-a.
- Polis! Aqui!
De nada adianta o esforço do dono. O cão saíra do seu alcance, tendo iniciado a sua perseguição sexual. Os transeuntes afastam-se bruscamente, desviando-se dos animais e do dono de um deles, que os persegue ferozmente. Uns caem, outros barafustam, outros observam a cena, estupefactos.
A viúva Mendes passeava, àquela hora, alegremente, o seu gatinho albino. Consta que ia à mercearia, em busca de cerejas para fazer aquele bolo de que só ela conhecia a receita.
Ao dobrar a esquina, passa por ela, apressada, uma cadela de pelo claro. Seguidamente, após dobrar a esquina, a medo, contra a Sra. Vitória embate Polis, fazendo-a cair. Diz-se que teve morte imediata.
Polis e Tomás, cão e dono, ficaram prostrados na calçada enquanto viam, impotentes, Vitória Mendes caída e inerte.

(Partes I, II e III, originalmente publicadas em O Melhor Amigo)