segunda-feira, 6 de julho de 2009

O que eu penso... da lei do incesto segundo Lévi-Strauss

“O problema da proibição do incesto não consiste tanto em procurar que configurações históricas, diferentes segundo os grupos, explicam as modalidades da instituição em tal ou tal sociedade em particular, mas procurar que causas profundas e omnipresentes fazem com que, em todas as sociedades e todas as épocas, exista uma regulamentação das relações entre os sexos.”

Lévi-Strauss, Claude, As Estruturas Elementares do Parentesco, Vozes, Petrópolis, 1982


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De acordo com Lévi-Strauss, ainda que fosse possível analisar-se a lei do incesto de um ponto de vista particular, analisando quais as «configurações históricas [que], diferentes segundo os grupos, explicam as modalidades da instituição em tal ou tal sociedade» (Lévi-Strauss, 1982), este autor preferiu atribuir-lhe o estatuto da norma que define a passagem do âmbito da natureza para o âmbito da intervenção cultural e, portanto, humana, sobre as normas naturais. A lei do incesto – ou a lei que determina a sua proibição – surge, então, analisada conjuntamente com a exogamia, a troca e a reciprocidade e é explicada não por motivos psicológicos, mas por motivos sociológicos. Ao originar a exogamia, que obriga a procurar mulheres noutro local que não o próprio grupo de parentesco, a proibição do incesto, de acordo com Lévi-Strauss funda a vida social e, como tal, a história da influência da cultura sobre as normas naturais – «assegura a primazia do social sobre o biológico, do cultural sobre o natural» (Lévi-Strauss, 1982).

«Lévi-Strauss coloca a aliança no terreno dos contratos e das dívidas, assentando uns e outros numa confiança recíproca» (Christian Ghasarian, 1999). «A natureza impõe a aliança sem a determinar; e a cultura recebe-a para logo lhe definir as modalidades» (Lévi-Strauss, 1982). Lévi-Strauss vai associar o tabu do incesto ao estabelecimento de alianças – entendam-se, exogâmicas – entre grupos de parentesco, isto porque estes devem estabelecer bases relacionais estáveis e pacíficas. A regra de exogamia origina cooperação e entreajuda com base no princípio de reciprocidade, o que torna a proibição do incesto na expressão negativa de uma lei de troca (de mulheres) e na expressão parcial do princípio da reciprocidade (Christian Ghasarian, 1999).

A proibição do incesto nem sempre se exprime em função do parentesco real, mas tem sempre por objecto «os indivíduos que se dirigem uns aos outros empregando certos termos» (Maurice Godelier, s.d.). «A proibição do incesto exprime a passagem do facto natural da consanguinidade ao facto cultural da aliança» (Maurice Godelier, s.d.). «A proibição do incesto constitui uma certa forma (…) de intervenção» (Maurice Godelier, s.d.).

Ora, uma vez sabendo que as modalidades de proibição do incesto nem sempre se prendem com o parentesco real, é possível concluir pela arbitrariedade da norma: ainda que o seu princípio seja universal e comum a todas as sociedades, as suas particularidades «variam consideravelmente no tempo e no espaço» (Christian Ghasarian, 1999). Resta saber quais as «causas profundas e omnipresentes fazem com que, em todas as sociedades e todas as épocas, exista uma regulamentação das relações entre os sexos» (Lévi-Strauss, 1982).

Qual o motivo da presença da lei de proibição do incesto em todas as sociedades? De acordo com Lévi-Strauss (1982), a proibição do incesto, encontra-se na base de todas as relações sociais e, como tal, funda a vida social; é a necessidade de se relacionar com os seus semelhantes que origina a lei da proibição do incesto que, por sua vez está na origem das relações sociais. A lei da proibição do incesto seria, então, pré-social.

Ora, vendo o Homem como ser social, é comum que produza normas com base à regulamentação dos seus relacionamentos com os seus semelhantes. Ainda que a lei da proibição do incesto possa ser comum a todas as sociedades, não significa que seja a base de todas as relações sociais, uma vez que a regulamentação das relações de parentesco e/ou entre os sexos poderá ter derivado de todo um leque de conflitos/contra-tempos originados pelas relações sociais [incestuosas] já existentes. Assim sendo, e apesar de se encontrar presente em todas as sociedades, esta norma poderá visar a protecção das relações de parentesco mas não de todas as relações sociais. Uma vez que as normas de proibição de relações incestuosas são arbitrárias, o parentesco surge como uma relação que pode nem sempre ser biológica – caso dos Bosquímanes, que estendem essa proibição a indivíduos que vivem sob o mesmo tecto e aos adoptados –, mas sempre como um dos tipos de relação social a salvaguardar. O parentesco surge como o elo máximo das relações sociais, o que não parece ser suficiente para definir a lei da proibição do incesto como base do estabelecimento das sociedades.




Bibliografia

Gaudelier, Maurice. Horizontes da Antropologia. 70, Col. Perspectivas do Homem. 14. s.d. (Original: 1973)

Lévi-Strauss, Claude. Estruturas Elementares do Parentesco. Vozes. Petrópolis. 1982

Ghasarian, Christian. Introdução ao Estudo do Parentesco. Terramar. 1999

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Girls with good personalities


If they have a great personality and they're not great looking... then who fucking cares? Well, let's just say hypotetically ok? What if they have a great personality? I know, I know. There are no girls with good personalities.

A good personality consists of a chick with a little hard body, who will satisfy all sexual demands without being too slutty about things, and who essentially will keep her dumb fucking mouth shut. The only girls with good personalities who are smart or maybe funny or halfway intelligent or talented, though god knows what the fuck that means, are ugly chicks. Absolutely. And this is because they have to make up for how fucking unnattractive they are.


terça-feira, 24 de junho de 2008

Heliocentrismo


Naquele dia brilhavas como o Sol; ofuscavas-me. Ainda assim, não deixei de olhar para ti.

O teu cabelo ruivo ondulava de forma sensual quando o empurravas para trás com a mão, tirando-o de cima dos teus ombros finos. O teu sorriso branco, vivo e sincero, que contrastava com a tua tez morena, apagava todos os que te rodeavam. E a tua voz!... doce e melodiosa. O verde dos teus olhos, que condizia de forma exótica com o cabelo e com as sardas da côr dos teus lábios finos, era transparente e límpido como a água.

Curiosamente, enquanto Sol que eras, enquanto atraías todas as atenções, sugavas a luz de todos os restantes. Por momentos pensei que reparava apenas em ti por teres conseguido apagar a pequena chama de todos os outros. Mas não fazia sentido; continuavas a ser a mais bela.

E ali estava eu, só, enquanto a minha mente passeava pelo infinito. Ainda assim, tu eras o infinito dele...

domingo, 9 de março de 2008

Criar o Futuro (V)


Cristina apanha o avião naquele dia chuvoso. O seu marido e filhos esperaram-na na sua humilde mansão no Canadá. A seu lado, está um senhor cuja cara não lhe é estranha.
Bernard, por seu turno, sabe perfeitamente quem é a senhora que viaja a seu lado; ele foi contratado por um brilhante homem de negócios, de nacionalidade britânica, para a assassinar. Nunca se propôs a aceitar um trabalho deste tipo. Foi obrigado a aceitá-lo pela pressão de forças maiores. Agora que a sua casa se encontra hipotecada está disposto a tudo para pagar as dívidas que se acumularam ao longo dos anos.

Cristina levanta-se e dirige-se para a casa de banho. Passados uns segundos, Bernard segue as suas passadas. Cristina abre a porta do cubículo e fecha-o de seguida. Bernard tenta interceptá-la, sem sucesso.

A porta do cubículo abre-se passados uns minutos. O silenciador da arma de Cristina abafa o som grave do tiro, tornando-o agudo e quase imperceptível àqueles que desfrutam a viagem, tranquilamente. Bernard cai, inerte, e é escondido numa das casas de banho.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Criar o Futuro (IV)


Cristina Mendes, filha da viúva, compareceu ao funeral. Dela, apenas se sabe que vive no Canadá e que se dirigiu a Lisboa para assistir ao enterro da senhora sua mãe. Não houve quem lhe dirigisse a palavra mas todos a olharam de soslaio, pelo menos uma vez.
Manuel, grande amigo da falecida sra. Mendes, mostrava-se calmo. Todos aqueles que compareceram ao funeral se dirigiram a ele como forma de lhe demonstrar o seu pesar. Apesar de agradecer, Manuel não verteu uma única lágrima pela viúva.

***

- Mas... Vitória, explica-me porque não queres voltar a ver-me!
- Bem sabes que sou casada.
- E que diferença faz? O teu marido nunca nos impediu de nos encontrarmos; até porque ele não sabe nem sequer desconfia do que se passa.
- Não sabe nem desconfia mas pode vir a saber. E agora, sai. Não tornes a voltar a bater a esta porta que não és bem-vindo.
- Por fav... - Vitória interrompe Manuel de forma irrascível.
- RUA!

Manuel saiu para não mais voltar. Vitória sabia-se grávida.

***

Cristina nasceu sem conhecer o pai. Segundo lhe contaram, este suicidou-se antes de saber que iria ser pai uns meses mais tarde. A viúva Mendes levou consigo o segredo bem guardado acerca da paternidade de sua filha. Manuel nunca havia sequer desconfiado, nem teria tempo suficiente para descobrir; Cristina voltaria ao Canadá após o enterro do corpo de sua mãe.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

A teoria dos mini-mundos (por mim...)

Um mini-mundo não só pode como deve dividir-se em várias vertentes, com vista à sua compreensão, ainda que deva, quando compreendidas as suas constituintes, ser visto como um todo. Quando nos apercebemos de um mini-mundo, devemos distinguir as suas componentes físicas, tanto as inanimadas como as animais, vegetais e humanas, e as suas componentes espirituais.
Um mini-mundo é, portanto, necessariamente composto por pessoas que lhe imprimem um determinado valor, uma determinada ideia ou crença, seja ela qual for, e pelo espaço físico envolvente. As componentes espirituais (ideias, crenças, relações inter e intra mini-mundos) são decorrentes das pessoas e do espaço físico que, a dada altura, compõem determinado mini-mundo.
O mini-mundo tem, assim, como principal característica, a volatilidade. Um mini-mundo não existe senão aquando da presença do indivíduo num determinado espaço físico e, ainda que dois ou mais indivíduos em simultâneo se encontrem num mesmo espaço físico, não significa que o mini-mundo se apresente da mesma forma para todos eles.

Um mini-mundo é, então, a impressão que cada indivíduo cria acerca do espaço onde se move, que pode ou não ser partilhada pelos que o rodeiam.

Em resposta a A Teoria dos Mini-Mundos por mim: http://bernaskubrick.blogspot.com/2008/01/teoria-dos-mini-mundos-por-bernardo.html

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Criar o Futuro (I, II, III)

Da janela do quarto vejo Amadeus a pass[e]ar. O seu trajecto habitual não demora mais que 100 metros (e sim, o que mede a distância tem necessariamente uma correspondência temporal): casa-trabalho, trabalho-casa. Sai do 15 e, até entrar no 28 da mesma rua, não despega os olhos do chão, como se algum dos manequins daquela pequena boutique pudessem revolucionar a sua vida.
Lola observa-o dia após dia e não o vê mudar de direcção; deseja que um dia, como que por acidente, se cruzem na mesma rua os todas as manhãs e todos os finais de tarde o vê passar, cabisbaixo.
Após olhar durante mais um pouco, Lola segue a cliente para dentro da loja, ajuda-a a escolher o vestido mais indicado ao seu delicado perfil e conclui a primeira parte da sua tarefa como assistente de moda. Apercebendo-se da entrada subreptícia de um vulto, pela porta, Lola volta costas à sua cliente, fixando Amadeus nos olhos.
- Bom dia, diz, a custo.
- Bom dia. Gostaria de ver as blusas, para senhora.
- Para alguém em especial?
- Sim. Para a minha mulher.
Dito isto, Lola, pede-lhe, entredentes e já sem força nas pernas:
- Aguarde um momento, por favor. Estou a acabar de atender uma cliente.

***

Enquanto Adelaide prova o vestido que Lola escolheu para si, João brinca, impaciente, com a sua pequena bola de borracha. Desastrado, chuta-a com força através da porta da rua; Zazá corre atrás da bola, voltando para trás de imediato, ao avistar um cão enorme a poucos metros de si. João sai calmamente a porta, acaricia o pêlo negro do cão e retira-lhe a bola de entre os dentes.
- Como se chama?, pergunta.
- Tomás.
- O cão...
- Ah. Polis.
João dirige-se ao interior da loja mas colide com a sua mãe à entrada da mesma.
- Tomás?!
- Adelaide... por aqui?
As semelhanças entre os traços faciais de João e Tomás apresentavam semelhanças evidentes. O mesmo cabelo escuro e escorrido sobre a testa, as sobrancelhas finas, direitas e pontiagudas, os mesmos olhos negros em forma de amêndoa, o nariz delicado e os lábios bem-definidos, presentes na mesma cara bem-delineada. A pele de Tomás era, contudo, ligeiramente mais escura.
Adelaide agarra a mão do filho e despede-se de Tomás de forma tosca, evitando olhá-lo nos olhos. Ainda que não compreendendo a atitude daquela que fora em tempos uma grande amiga sua, Tomás encolhe os ombros e segue o seu caminho. Tem cerca de trinta minutos para atravessar a cidade.

***

Polis, o cão de Tomás, fitava, há alguns segundos, um cão do sexo feminino que urina à esquina do prédio. O seu rosnar feroz nenhuma reacção provoca na cadela que parecia encontrar-se num estado de apatia completa, como se o mundo tivesse perdido os seus contornos. Tomás puxa-lhe a trela, comprimindo-lhe a garganta com a coleira. O suspiro de Polis atrai, finalmente, a sua presa; no entanto, esta, passa-lhe à frente sem sequer levantar o olhar. Tomás puxa o seu fiel companheiro para a esquerda, mas este segue para direita; segue-a.
- Polis! Aqui!
De nada adianta o esforço do dono. O cão saíra do seu alcance, tendo iniciado a sua perseguição sexual. Os transeuntes afastam-se bruscamente, desviando-se dos animais e do dono de um deles, que os persegue ferozmente. Uns caem, outros barafustam, outros observam a cena, estupefactos.
A viúva Mendes passeava, àquela hora, alegremente, o seu gatinho albino. Consta que ia à mercearia, em busca de cerejas para fazer aquele bolo de que só ela conhecia a receita.
Ao dobrar a esquina, passa por ela, apressada, uma cadela de pelo claro. Seguidamente, após dobrar a esquina, a medo, contra a Sra. Vitória embate Polis, fazendo-a cair. Diz-se que teve morte imediata.
Polis e Tomás, cão e dono, ficaram prostrados na calçada enquanto viam, impotentes, Vitória Mendes caída e inerte.

(Partes I, II e III, originalmente publicadas em O Melhor Amigo)

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Voltaire

Aquilo a que chamamos acaso, não é, não pode deixar de ser, senão a causa ignorada de um efeito conhecido.

Correlação e causalidade

Há tempos atrás, eu e o Bruno almoçávamos alegremente num dos restaurantes daquela controversa cadeia de junk food, quando me atrevi a mostrar o meu desagrado por algumas das cadeiras inúteis do meu curso, como Estatística ou Métodos de Investigação (que fariam sentido num curso de psicologia social, mas não num curso de psicologia clínica).
Nisto, refiro-me à noção de correlação e causalidade, nos seguintes termos:

"Uma relação entre duas variáveis não implica que exista uma relação causal entre elas. A variável independente A, quando manipulada para influenciar a variável dependente B, pode influenciá-la ou não. Se não surtir efeito sobre ela, não existirá uma relação de causalidade, o que demonstra que nem tudo na vida se rege por uma relação de causa-efeito."

Para o Bruno, o Mundo move-se segundo uma lógica de causalidade. "A provoca B que provoca C que provoca D (...)".

O debate prosseguiu, bastante aceso, sem que tivéssemos conseguido chegar a uma conclusão. Cada qual manteve a sua opinião, o que gerou um impasse. Ao recordar, mais tarde, a situação, concluí que talvez necessitássemos de definir antecipadamente quais os termos a utilizar e o seu significado, i.e. se eu disser que a causa A pode não ser a causa de B, significará que ainda que não influenciando B, A continua a ser uma causa - e isto pode gerar algumas confusões de vocabulário.

Já explicitei ambas as posições e, como seria de esperar, continuo a defender a minha. Uma vez devidamente introduzido, deixo-vos o tema para debate; agora, quero saber o que têm a dizer.